Desculpe, não quero incomodar

Levanto cedo e tomo coragem para sair à rua.

É preciso coragem, pois está frio. E eu, quase nua.

Sou pessoa de poucas roupas, de poucas palavras.

– Desculpe Sr.

– Desculpe Dona.

– Não quero incomodar.

– Meu marido me abandonou, tenho cinco filhos, pode me ajudar?

– Aceito comida, trabalho, respeito… qualquer coisa.

Mas sou ignorada. Quando me afasto, às vezes ouço que sou uma ignorante.

Que ironia.

Mas devo ser mesmo, pois ignoro a dor, as angústias e as cicatrizes de uma vida quase não vivida.

– Sobreviva! Digo a mim mesma.

E por onde passo sinto no olhares de soslaio com desprezo. Finjo que não vejo.

Sei o porquê olham, estão incomodados com meu vestir, com meu perfume.

Já me mandaram até comprar sabonete e tomar banho.

Mas tomara ter dinheiro para comer, vou ter dinheiro para comprar sabonete?

Em que mundo que vive essa gente?

– Desculpe Sr.

– Desculpe Dona.

– Não quero incomodar.

– Mas estou perambulando o dia todo em busca de um pouco de esperança para levar para casa.

– Meus filhos não sonham há dias.

Quando chego, meus filhos já voltaram da escola. Nunca faltam, a merenda é sagrada.

Preparo e ponho à mesa o que consegui.

– Comam a esperança que precisarem. O que sobrar, a mãe come.

Nunca sobra.

Faço uma oração.

– Desculpe, Sr.

– Desculpe, Dona.

– Desculpe, Deus.

– Não quero incomodar.

– Amém.

Nota: Poesia inspirada na frase real de uma Senhora chamada Jussara, conhecida popularmente como “Jussara Louca”.

” Tomara ter dinheiro para comer, vou ter dinheiro para comprar sabonete?”

Somente com um pouco de loucura para suportar a vida.


– Humanidade I –

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Quebrou em mim a garrafa de champanhe,
E me batizaram “Humanidade”.
Sob aplausos, flutuei sobre o mar umbral.
E assim fui, navegando…

Comigo a tripulação,
Escolhida a dedo,
Contra qualquer tribulação.
Seja para águas de alegria,
Seja para águas do medo.

Nas máquinas, a Mestre Natureza.
Mulher no convés? Isso mesmo!
E não é só beleza.
Dela dependem inclusive os próprios mares.
Duvida? Experimente a natureza provocares!

Nas câmaras, o Comissário Generosidade mantém todos satisfeitos.
Meus tanques sempre cheios,
Pois sou movido por amor.

Na comunicação, o Sr. Perdão.
Especialista em extinguir qualquer problema.
Não importa em que porto a gente chegue, não tema!
O Sr. Perdão, resolve qualquer problema.

Entre os marinheiros está o Conhecimento.
Um pouco chateado, pois não pode trazer sua amiga, Sabedoria,
Que tinha alta patente.
Disseram-lhe que para essa vaga já tinha gente.
A Comandante Ganância havia sido escolhida
E como sua imediata, embora a Sabedoria tivesse vontade,
A Ganância favoreceu uma velha amiga, a Sra. Vaidade.

E assim naveguei, naveguei, naveguei…

Até que um dia o Comissário Generosidade, ofendido pela Comandante Ganância,
Deixou faltar amor em meus tanques!
E com a indiferença da Imediata Vaidade,
A Natureza se irritou de verdade.
Quando o Perdão tentou intervir, poxa,
Já era tarde.

E assim fiquei, estagnado,
Flutuando pelos mares, desgovernado.
Até que fui encontrado pelo Tempo, um rebocador que me levou ao porto mais próximo.
E lá estava ela, pacientemente esperando,
A Sra. Sabedoria.
Que recorreu ao Tempo para o resgate de um pobre navio chamado Humanidade.
Mas até ela percebeu, para mim não havia mais jeito.
É chegada a hora do desmanche.

 

  • Poesia inspirada na imagem que acompanha esta publicação. É resultado da provocação poética do meu amigo Paulo Motta, que desafiou poetas a poetizar com base em suas fotografias.

Acróstico – Céres Felski

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Cortejando a flor
E esperando sua resposta
Reverberou o coração
E se arrependeu da intenção posta
Sempre afoito, bobo e apaixonado

Faz as coisas porque o coração manda
E espera que a flor entenda
Lhe retribundo com um beijo
Singelo e cristalino, como o orvalho da manhã
Kamikaze das paixões não correspondidas
Inteiro e, ao mesmo tempo, despedaçado

Acróstico – Hang Ferrero

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Heitor queria um conselho
Apesar de ser avisado por todos
Não ouviu e foi consultar o sombrio ermitão
Gargamel Barba Ruiva

Foi até uma cabana na floresta
Em noite de lua cheia, tal qual mandava a tradição
Rugidos dos ursos, uivos dos lobos
Ranzinza, não precisou nem bater na porta para ouvir
Entre, Heitor, tenho a sua reposta
Receoso, mas curioso, Heitor sentou e ouviu
O que você busca só tem um caminho: o Perdão.

Miau, miau

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– Miau, miau –

Quando escolhi te escolher
ao que me escolheste naquela tarde,
percebi de pronto,
no exato momento em que me olhaste,
que eu te amei,
e que tu me amasses

Em chatonês conversamos por horas,
todas as manhãs,
algumas noites
e muitas tardes
foram abraços,
cheirinhos
trocas de olhares

tudo recíproco
um ronronar de sinceridade

E responder a um gato
pode até parecer maluquice
mas o amor não tem língua
foi o que ele me disse

Nit foi miante que só…
foi um miante de verdade.

Adeus meu amigo, te vejo mais tarde.
Ou como tu dirias: – Miau, miau

O vaso japonês

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Dourado vaso que transformou minha sala
Deu mais beleza, sentido para tudo
Decoração, encanto, um outro mundo

Deu até para guardar as tristezas
De imediato tampei, apertei firme
Divinamente iluminada, minha sala agora reluzia

Duradouramente bela
Deleite-me da decoração que de coração escolhi em meio
D’outros vasos

Distraí tanto que
Desastrosamente aconteceu,
Derrubei-o
Despedaçou-se
Desesperei-me

De pedaço em pedaço juntei-o, colei-o
Dedicação em cada pedacinho e farelo
Desmontei, montei e ao final
Deixei como ficou
Deformado, com as tristezas do seu interior a vista

Depois pensando, até que ficou mais bonito
Destarte exige um olhar menos rígido
Descobri que o olhar sobre o vaso perfeito era, na verdade
De todos, meu maior defeito

Ego meu amigo

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Ego meu amigo
Sustento da minha imaginação
Seguras este espelho carcomido
E nele me vejo
Sou eu, mas corroído

A ferrugem em meus traços
Denotam e acabam com minha vaidade
Você pergunta se me vejo bem
Mas nesta imagem mal me reconheço

Você diz que estou bonito
Mas enquanto for seu amigo
E você o interprete do meu reflexo
Não mereço muitos elogios

 

Tentar não custa nada

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O êxtase é revelador
Às vezes tudo, às vezes nada
E a cada experiência
Ao coração uma alfinetada

Brincadeira sem graça
Ao preço de que tentar não custa nada
Mas custa…
Pago com vazio
Com um dia seguinte sombrio
e uma realidade longe da que aspiro
O custo é alto e as fissões visíveis
É um pingo de alegria, por uma chuva triste

E é nesses tempos que carinhos são como lampejos de amor